quarta-feira, 28 de março de 2012

Essências

Para não perder a essência das coisas...

 Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, defendia que, no momento em que lemos, emprestamos por alguns momentos os pensamentos de outra pessoa. Segundo ele, o melhor seria que escrevessemos nossos próprios textos dignos de serem lidos....

  Certo dia, conversava sobre música com um colega que cursava o quarto ano de composição e regência, se preparando para ser um Maestro, e discutindo sobre estilos, citei Mozart. Esse estudante na época me disse que Mozart era um compositor comum, que utilizava apenas a base melódica exsitente na época. E completou, bradando:
 - Hoje a música é muito melhor, afinal de contas não é necessário ser músico para fazer música!

 Um vizinho me disse certa vez:
- "Esses caras (músicos eruditos), só eram bons porque na época não havia televisão, não tinham mais o que fazer, e Bach, por exemplo, era do tipo que se visse uma mulher nua em sua frente diria para ela ir embora, porque ele estava compondo no momento!"
 Minha resposta não poderia ser diferente:
- O que impede qualquer pessoa de desligar a televisão e estudar afim de alcançar seus sonhos e objetivos? Quanto á Bach, teve dezessete filhos, me parece curioso....


  Fui convocado para uma entrevista algum tempo atrás, na área de recursos humanos, o entrevistador era um administrador formado, e me perguntou se o seu filho, que nunca havia visto uma entrevista de emprego poderia observar e ficar na sala. Respondi que sim. Minutos depois, enquanto falava de minha experiência profissional e pessoal, ele se virou para seu filho e disse:
 - Ele é do tipo "E", sorrindo.
 Perguntei o significado do "tipo E".  E ele me respondeu:
-  " Ah, é uma brincadeira com tipos de Psicologia". (brincadeira em entrevista de emprego??)
 Perguntei novamente:
- O Sr. é Psicólogo?
 Me respondeu:
- Não, mas aprendi psicologia convivendo com psicólogos durante esses anos, já posso me considerar um psicólogo.

  Em mais uma entrevista, dessa vez a psicóloga me convocou e disse que o fator principal que a teria levado a agendar a entrevista era o inglês fluente, que faria toda a diferença nesse caso. Por telefone ela me pediu que levasse um currículo impresso, pois ela já tinha um mas pediu que levasse mesmo assim. Imprimi meu currículo em inglês (como sou precavido, imprimi em portugês também) e no dia seguinte levei em uma pasta com todo cuidado para não amassá-los. Ao chegar ela me pediu que entregasse o curriculo, logicamente entreguei o impresso em inglês (que segundo ela seria o diferencial), a resposta foi a seguinte, com uma certa arrogância:
 - Eu não quero esse, você não tem em português?
 Entreguei em português!
 Em seguida fomos para uma sala em três candidatos e foram feitas perguntas pessoais sem relevância nenhuma para a vaga, tais como:
 -" Você coleciona alguma coisa?"
 Foi questionado sobre salários de outras empresas e fatos sigilosos sem nenhum cuidado por parte da psicóloga. Nada relevante á vaga foi discutido.
 Ao final da entrevista a mesma disse que caiu de pára-quedas no setor de RH, que não gosta da área e o que ela realmente queria era atender em clínica.
 Detalhe... Nada de entrevista em inglês e a psicóloga disse que não falava o idioma.

 O leitor deve ter percebido que cito muito a música no blog. Devo dizer que sou apreciador da arte em geral, não aquilo que é denominado arte por falta de entendimento, mas a arte verdadeira, mas isso é assunto para outro blog.
 Quanto ao meu colega músico que citei no início, pergunto qual a vantagem em estudar tanto tempo se hoje ele me diz que a música é muito melhor porque não é necessário ser músico para fazer música? Realmente, digo que já vi de tudo. Música moderna em que foi utilizado som de descarga sendo puxada, sirenes, sons atmosféricos, entre outras coisas, sem harmonia ou profundidade nenhuma.
 Não sou um dos maiores fãs de Mozart, aprecio muito mais o estilo extremo de Beethoven e  o romantismo de Chopin. Porém, é inegável o senso de harmonia e genialidade desse compositor, que viveu em uma época em que se o indivíduo não fosse absurdamente bom e virtuoso na música estava fadado ao esquecimento, além disso, Mozart faleceu em 1791 e sua arte ainda é executada e atual. Mozart usava os alicerces da época mas era engenhoso ao construir música. Além disso, música é sentimento e não teoria.
 Recomendei á esse colega que fizesse como um maestro com quem tive prazer de fazer parceria sempre dizia. Estude música e torne-se um virtuose, escreva suas obras dignas de serem ouvidas, e seja lembrado por isso. Mas nunca perca a emoção e o sentimento, pois música não se faz sem esses ingredientes.

 Psicologia não se aprende observando os psicólogos, é preciso estudar cinco longos anos e conhecer profundamente a teoria. Mas, acima de tudo, o psicólogo deve gostar de lidar com pessoas, ser ético e atuar no intuito de extrair o melhor do ser humano, gostar do que faz é a diferença básica entre um bom profissional e um péssimo profissional de qualquer área.

 Antes de um selecionador convocar para uma entrevista é necessário que o mesmo verifique as necessidades da vaga, do perfil, para que possa  verificar se a pessoa seria compatível com o cargo e vice-versa, mas, vejo hoje profissionais cada vez mais despreparados em recursos humanos, infelizmente. 
 Em minha experiência como implantador e responsável pelo setor de RH, me preocupo realmente com o ser humano. Quando está desempregado, o candidato não tem tempo á perder e não pode gastar com condução apenas para satisfazer o ego do entrevistador.

  Desde o início da faculdade e sempre em minha experiência profissional, durante a aplicação de treinamentos e em diversas situações, prego que o ser humano bem sucedido, principalmente em recursos humanos, é aquele preparado para lidar com pessoas e preocupado em desenvolvê-las.

 Escreva seus próprios textos passíveis de serem lidos, mantenha a ética e respeito ao próximo e não critique, busque construir. Afinal de contas, faça melhor do que alguém, e faça com dignidade, pois criticar é fácil. Faça o que gosta, goste do que faz e seja responsável pelas suas atitudes, hoje vivemos em um mundo superficial em que muitos se encontram perdidos em suas teorias. Desligue sua TV e estude com muita dedicação, afinal de contas, mais do que nunca, aprender assistindo TV é improvável.

 Escreva com dignidade o livro da sua vida para que este possa ser digno de ser lido.... para não perder a essência das coisas, não se perca na teoria...

Um comentário:

  1. Prezado Júlio.
    Você tem razão. E, infelizmente, pessoas despreparadas tomam os empregos das pessoas qualificadas e ainda, comprometem a imagem das empresas. Que tal denunciar o "pseudo-psicólogo" ao Conselho Regional de Psicologia? Eles iriam adorar! E a psicóloga que não gosta da área, que tal seria mandar um e-mail para o dono da empresa e aproveitando para perguntar se os negócios estão indo bem?
    É isso aí. Já dizia o Romário, jogador de futebol, sobre o Luxemburgo: "Quem é ruim se destrói sozinho."
    E parabéns pelo blog! Nada há para você se preocupar. A linguagem é coerente e pertinente.
    Um abraço do Prof. Edson Pini

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